Deus criou a humanidade para que pudéssemos ter vida eterna, mas o pecado infelizmente interveio para impedir que a obtivéssemos sem ajuda. Se é para termos vida eterna, Deus terá de fazer algo a respeito [Ele terá que intervir na História da Humanidade].
Deus não pode fazer de conta que o pecado não existe ou considerá-lo irrelevante. É uma força que tratou de interromper tudo o que ele havia planejado para sua criação. Um remédio que desfaça os efeitos do pecado, ainda que leve seus aspectos morais a sério, deve ser encontrado. Anselmo deu ênfase ao pecado como problema moral. Ele não pode ser simplesmente ignorado, mas deve ser confrontado.
Então, como a ofensa do pecado pode ser removida? Como pode o pecado ser perdoado justamente, de maneira que abranja tanto a ofensa causada a Deus pelo pecado quanto seu generoso amor?
Ao responder essa questão, Anselmo formula uma analogia vinda dos tempos feudais. Na vida comum, uma ofensa contra alguém pode ser perdoada desde que algum tipo de compensação seja oferecida em contrapartida. Anselmo se refere a essa compensação com uma "satisfação". Vejamos, por exemplo, um homem que rouba uma quantia de dinheiro. Para satisfazer as exigências da justiça, ele teria de devolver o dinheiro além de uma quantia adicional pela ofensa do roubo. Essa quantia adicional é a "satisfação".
Anselmo argumenta que o pecado é uma ofensa séria contra Deus, e ela exige uma satisfação. Como Deus é infinito, essa satisfação deve ser também infinita. Mas por sermos finitos, não podemos pagar por ela. Parece impossível, então, que tenhamos vida eterna.
Mas esse não é o fim da questão! Deus deseja que sejamos salvos - e salvos de maneira a preservar tanto a misericórdia quanto a justiça dele. Embora nós, como seres humanos pecadores, devêssemos pagar pela propiciação de nosso pecado, a verdade é que não podemos. Simplesmente não temos os requisitos ou a habilidade para quitar esse débito. Em contrapartida, ainda que Deus não tenha nenhuma obrigação de pagar por isso, ele ainda assim o faria, se quisesse.
Então, Anselmo assevera, fica claro que um Deus-homem seria, ao mesmo tempo, capaz e obrigado a pagá-la. Assim, a morte de Jesus Cristo, como Filho de Deus, é o meio de resolver esse dilema.
Como ser humano, Cristo tem a obrigação de pagá-la; como Deus, ele tem a habilidade de pagá-la. A dívida, então, está paga e nós podemos recuperar a vida eterna. A teoria de Anselmo mostra como a morte de Cristo permite que Deus perdoe nossos pecados sem esquecer sua justiça.
A conexão entre a morte de Cristo e nossa redenção não é inexistente e tampouco arbitrária. Como Anselmo demonstra, há uma relação real e importante entre a cruz e o perdão. Essa relação nos permite ver o sentido da cruz e ampliar a consciência da maravilha que é nossa redenção e do Deus que graciosamente nos redime.
O preço pago por Deus para nos oferecer o perdão foi alto. Seu Filho morreu para que pudéssemos ser perdoados. Essa idéia maravilhosa nos ajuda a perceber quanto Deus nos ama. E deve até nos dar uma idéia de quanto amor devemos retribuir-lhe!
(Trecho retirado do livro Teologia para Amadores de Alister McGrath)


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