Certa vez, quando assistia ao ofício de sábado na sinagoga de Nazaré, sua cidade, foi dado a Jesus o rolo de Isaías, do qual ele leu: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor". (Lucas 4:18,19)
Durante o sermão que se seguiu, Jesus ousou afirmar que ele mesmo era o cumprimento dessa Escritura. A princípio, a congregação ficou impressionada diante de suas palavras graciosas. Quando, porém, ele prosseguiu sugerindo que seu ministério, como o dos profetas Elias e Eliseu, seria mais aceitável aos gentios do que a Israel, eles ficaram tão furiosos que o expulsaram da cidade e tentaram atirá-lo de um despenhadeiro próximo. Isso foi o prenúncio de sua rejeição posterior e forçou-o a mudar sua residência e sede de operações de Nazaré para Cafarnaum, na costa noroeste do lago.
A partir de Cafarnaum, durante o restante de seu segundo ano, Jesus fez incontáveis jornadas pela Galiléia. Mateus resume a forma que seu ministério tomou:
Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.
Primeiro ele pregava. Marcos diz que o assunto de sua pregação era “o evangelho de Deus”, resumido nas seguintes palavras:
"O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho". (Marcos 1:14,15)
Esse reino divino consistia no reinado pessoal de Deus na vida dos seres humanos, e ele (Jesus) tinha vindo inaugurá-lo. Sua chegada ocorria em cumprimento à expectativa do Antigo Testamento, e afim de “receber”, “entrar” ou “herdar” o reino as pessoas deveriam arrepender-se e crer, aceitando humildemente seus privilégios e submetendo-se como criancinhas às suas exigências.
Depois ele ensinava. Quer dizer, ele fazia mais do que anunciar o evangelho do reino e convocar as pessoas a adentrá-lo; ele prosseguia ensinando a seus discípulos a lei do reino. Dela não temos melhor ensinamento do que o “Sermão da Montanha”, que consiste talvez de instruções apresentadas durante um período prolongado. Seu tema unificador é o chamado a seus discípulos a ser diferentes tanto dos pagãos quanto dos fariseus.
Eles não devem tentar driblar as demandas da lei com raciocínios falsos, ou praticar sua piedade diante dos homens como os hipócritas, mas perceber que Deus vê em segredo e enxerga o coração. Seus discípulos devem também ser muito diferentes dos gentios, em seu amor, suas orações e sua ambição. Devem amar os inimigos bem como os amigos, renunciar a vãs repetições na oração, substituindo-as por uma aproximação inteligente, porém inocente a seu Pai, e buscar em primeiro lugar, como bem supremo, não suas próprias necessidades materiais, mas a justiça e a integridade de Deus.
As pessoas ficavam perplexas diante da autoridade de Jesus, porque ele não ensinava nem como os escribas (que invariavelmente citavam outras autoridades), nem como os profetas (que falavam em nome de Iavé), mas com sua própria autoridade e em seu próprio nome, declarando “em verdade, em verdade, vos digo”.
Ele, além disso, reforçava seu ensino com inesquecíveis parábolas, que ilustravam o amor de Deus pelos pecadores (p. ex., o filho pródigo), a necessidade de humildade na confiança e misericórdia de Deus para a salvação (p. ex., o fariseu e o publicano), o amor que devemos ter até mesmo por aqueles que não podem exigir nada de nós (p. ex., o bom samaritano), o modo como a Palavra de Deus é recebida e o reino cresce (p. ex., o lavrador e a semente de mostarda), a responsabilidade dos discípulos em desenvolver e exercitar seus dons (p. ex., as minas e os talentos) e o julgamento dos que rejeitam o evangelho (p. ex., o trigo e o joio).
Em terceiro lugar, ele curava. Realizava milagres também, demonstrando poder sobre a natureza ao acalmar uma tempestade no lago, andar sobre a água e multiplicar pães e peixes.
Seus milagres mais comuns eram, no entanto, milagres de cura, realizados por vezes a um toque de sua mão, outras por sua mera palavra de comando. De certa forma, a explicação suficiente para seu ministério curativo é seu amor, pois ele era tocado de compaixão ao testemunhar qualquer forma de sofrimento. Além disso, no entanto, seus milagres eram “sinais” tanto do reino de Deus quanto de sua própria divindade. Eles sinalizavam que o reinado do Messias havia começado, como as Escrituras haviam previsto. (...)
(...) Os milagres eram também sinais de que Jesus era o Filho de Deus, pois cada um deles funcionava como uma parábola, dramatizando alguma de suas alegações divinas. A alimentação de cinco mil proclamava visivelmente sua alegação de ser o pão da vida; a cura do cego de nascença, sua alegação de ser a luz do mundo; os mortos que levantou; sua alegação de ser a ressurreição e a vida.



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